Ensaio Honda NT1100 – Turística contemporânea

A Honda tem por hábito fabricar motos muito inteligentes, que vão ao encontro do que o mercado pede, aproveitando bases existentes para que o produto final apresente um preço apelativo. A NT 1100 não foge a essa regra, pelo que através do êxito global que é a Africa Twin nasceu uma moto de estrada confortável e bem interessante, que de certeza faz um enorme apelo aos possuidores de motos Honda de média cilindrada.

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TEXTO: FERNANDO NETO / FOTOS: HONDA

O segmento de motos touring caiu muito ao longo dos últimos anos, não porque os motociclistas tenham deixado de viajar, mas acima de tudo porque muitos começaram a realizar deslocações maiores aos comandos de polivalentes motos maxi-trail. Estas são motos fantásticas, sem dúvida, mas para quem as utiliza apenas em asfalto uma coisa é certa: nenhuma moto de aventura terá o conforto e a dinâmica de uma turística planeada de raiz para andar apenas no asfalto! A Honda sabe disto melhor que ninguém, e aqui entre nós, se querem ter uma experiência de condução notável em viagem, durante horas a fio, não deixem um dia de experimentar um modelo da linha atual Gold Wing. O motor de 6 cilindros e a dinâmica incrível são de babar!

Faltava então um modelo totalmente de estrada na marca (mais acessível e ligeiro que a Gold Wing), e se algumas marcas pura e simplesmente deixaram de apostar no segmento, outras têm vindo a apurar os seus modelos, como é o caso da BMW que tem na sua R 1250 RT uma das favoritas dos motociclistas no mundo inteiro. Também aqui a marca da Asa Dourada preferiu não ir atrás, fazendo algo mais acessível mas mantendo os padrões de qualidade da marca. Uma NT 1100 que vem colocar-se entre as bem sucedidas CBF 1000F, Deauville e Pan-European do passado, que já não se encontram na gama atual.

Características

A NT pretende ter o conforto de uma verdadeira turística e a agilidade de uma crossover de média cilindrada, para uma fácil utilização no dia-a-dia. Apresenta linhas que nos fazem lembrar a CBF mas com mais modernidade, e a frente é claramente inspirada na X-ADV, com iluminação LED. Possui malas laterais bem requintadas com 65L de capacidade total, e na instrumentação de 6.5 polegadas temos um estilo de visualização para cada modo de condução, Tour, Urban e Rain, além de dois modos personalizáveis. A instrumentação apresenta conetividade Bluetooth e é compatível com Apple CarPlay e Android Auto, e o para-brisas é regulável manualmente em 5 posições, com 164 mm de diferença entre o ponto mais baixo e mais elevado, possui vários defletores laterais para uma proteção aerodinâmica total, e vem ainda equipada com descanso central e entradas USB e ACC para carregamento de qualquer sistema eletrónico. Por falar em eletrónica, destaque para o sistema HSTC de controlo de tração de vários níveis, e que integra também o sistema anti-cavalinho, além da regulação do travão motor. Os punhos aquecidos são de série (5 níveis).

Quanto ao motor, o bicilíndrico de 1.084 cc com cambota a 270º para uma ordem de explosão irregular e superior tração debita 75 Kw (cerca de 100 cv) de potência às 7.250 rpm e 104 Nm de binário, com uma injeção de combustível ajustada para uma maior facilidade de condução, enquanto o sistema de escape é ligeiramente mais silencioso. Face à Africa Twin monta ainda um diferente radiador e diferentes condutas de admissão

A NT monta um depósito de 20,4 litros e tal como na Africa Twin, podemos escolher uma versão com transmissão DCT de dupla embraiagem – sistema que tem vindo a ser apurado ao longo dos anos – pelo que nesse caso não precisamos de usar manete de embraiagem e seletor na caixa de velocidades.

Ciclística

O quadro da Africa Twin manteve-se sem muitas alterações, mas o braço-oscilante é novo, estando ligado a um sistema de suspensão com mono-amortecedor Showa, neste caso com regulação remota da pré-carga da mola. À frente a forquilha invertida de 43 mm da mesma marca apresenta também 150 mm de curso, bem menos que a Africa Twin, e possui também regulação na pré-carga.

As rodas são naturalmente de 17 polegadas, com a dianteira a montar discos de 310 mm e pinças radiais Nissin de 4 êmbolos. Quanto aos pneus, as motos desta apresentação vinham calçadas com Metzeler Roadtec 01, mas também poderão chegar aos concessionário com Dunlop GPR-300. Para quem gosta de números, fazendo algumas comparações com a CRF 1100L Africa Twin, esta NT apresenta menos 75 mm de altura ao solo, um assento 30 mm mais baixo na posição standard (820 mm ao solo), 7 mm menos de trail e 40 mm menos na distância entre eixos. Quanto ao peso, é de 238 kg (em ordem de marcha) e de 248 kg no caso da versão DCT.

Em termos de acessórios também pouco faltará a esta NT, com uma enorme lista de elementos fabricados na fábrica da Montesa em Barcelona. Assentos mais confortáveis, sacos de depósito, quickshift, top case, luzes de nevoeiro, etc, podem ser adquiridos separadamente ou com os pacotes Urban (PVP de 565 €), Comfort (680€) e o mais completo Travel (1.250 €).

Em Tarragona

Esta é uma moto bonita, faz lembrar a X-ADV através da frente bem agressiva, embora o para-brisas apresente dimensões diferentes. Em branco e sem a top case relembra um pouco a tetracilíndrica CBF 1000F, de 4 cilindros de 2011. A NT é também grande e imponente, especialmente se tiver o para-brisas elevado e o top-case montado. A qualidade geral é elevada, tudo está no sítio certo e em andamento tudo é fácil, desde logo com uma boa posição de condução e conforto e espaço para nos movermos no assento. A proteção aerodinâmica é muito boa e sente-se o bom trabalho dos defletores a retirarem o vento do corpo, mas o facto do para-brisas ser ajustável apenas manualmente e pelo exterior da moto é um grande entrave. Se não o subirmos antes de entrarmos em auto-estrada temos de esperar até à estação de serviço seguinte, e a situação inversa também pode acontecer ao entrarmos na cidade, com a visibilidade a ser prejudicada. Situação quase caricata quando até a scooter Forza 125 possui regulação elétrica do vidro. Os maníacos do equipamento também sentirão falta de uma ignição sem chave ou de suspensões eletrónicas, mas temos de série os punhos aquecidos, o cruise control e as malas laterais.

Em andamento notamos que a suspensão é bastante confortável, em especial à frente, mas o comportamento dinâmico não é afetado pela aposta no conforto (faltou andarmos a seco para o comprovarmos melhor em “curvões” e travagens fortes), que é ainda superior quando conduzimos uma NT com o assento Comfort! Apenas a versão DCT esteve disponível nesta apresentação, na nossa opinião a escolha mais sensata, e após começarmos o dia no modo D (que passa de caixa mais cedo) passámos a usar o S numa posição intermédia, para passagens de caixa nos dois sentidos que parecem adivinhar as nossas intenções, mesmo em estrada de montanha que esteve molhada durante todo o dia. Apenas a arrancar o sistema DCT não é tão tão suave quanto um condutor experiente a dosear a embraiagem, mas de resto 5 estrelas! Quanto aos modos de condução, preferi quase sempre o Tour, passando pelo Rain quando a estrada estava mais escorregadia. Felizmente os Metzeler são também muito bons nestas condições, pelo que a NT ofereceu sempre confiança através de uma ciclística que lê muito bem o asfalto e de um sistema de travagem que cumpre com toda a eficácia, na potência e tato na manete. Também as prestações são bem aceitáveis, com uma boa subida de regime e binário interessante, a que se junta um som bem apelativo quando se puxa pelas mudanças ou nas reduções. Em auto-estrada também revelou muita estabilidade, mesmo com o para-brisas elevado e três malas colocadas, a velocidades bem superiores ao limite legal.

Pouco andámos a seco, o que foi pena, mas chegámos ao final do dia sem qualquer cansaço e com a instrumentação a mostrar uma média de 5,4 l/100 km após os 245 quilómetros realizados. A meio do percurso optámos por colocar o para-brisas numa posição intermédia e não mais lhe mexemos, perante o bom compromisso obtido. Gostámos do funcionamento das malas e dos punhos aquecidos, mas já os comandos possuem demasiados botões, o que pode atrapalhar um pouco, especialmente na condução noturna pois não são retroiluminados.

A instrumentação é excelente e para rematar resta dizer que esta é uma turística muito simpática que já fazia falta na gama. Ágil mas estável, confortável e com uma correta dinâmica, é a típica Honda que não nos irá deixar ficar mal, na cidade, em AE ou na montanha, apresentando uma relação preço/qualidade/equipamento interessante. E no fundo, é uma excelente moto para todos os condutores Honda que pretendam evoluir das suas CB 500, NC 750, entre outras, para um modelo muito completo e 100% estradista.

Honda NT 1100

MOTOR bicilíndrico paralelo a 270º, 8 válvulas, refrigeração líquida

CILINDRADA 1.084 cc

POTÊNCIA 75 kW @7.500 rpm

BINÁRIO 104 Nm @ 6.250 rpm

CAIXA dupla embraiagem de 6 velocidades

QUADRO tipo duplo berço em aço

DEPÓSITO 20,4 litros

SUSPENSÃO DIANTEIRA forquilha invertida Showa de 43, curso de 150 mm

SUSPENSÃO TRASEIRA monoamortecedor Pro-Link, curso de 150 mm

TRAVÃO DIANTEIRO  2 discos de 310 mm, pinças radiais de 4 êmbolos

TRAVÃO TRASEIRO  disco de 256 mm, pinçs de 1 êmbolo

PNEU DIANTEIRO 120/70 ZR17

PNEU TRASEIRO 180/55 ZR17

DISTÂNCIA ENTRE EIXOS 1535 mm

ALTURA DO ASSENTO 820 mm

PESO 248 kg

P.V.P. 15.100 € (versão c/ DCT)

desde 14.100 €

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