Guia da Estrada Nacional 2

Este texto não é um roteiro sobre o que fazer na EN2 – o que visitar, onde comer ou dormir, quais as melhores paisagens. Sobre isso já muitos escreveram e, além do mais são impressões sempre subjetivas: ninguém conhece todos os restaurantes, todos os alojamentos ou viu tudo o que há para ver.

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Aqui vou referir o percurso – que não é tão fácil como alguns supõem – e alguns conselhos sobre como o percorrer.

O sucesso de uma viagem (como de quase tudo na vida) mede-se pelo saldo entre as expectativas antes e a realidade depois. Se esta última iguala ou supera a primeira poderemos dizer que correu bem e iremos contar aos nossos amigos e recomendar. Se, ao invés, as expectativas se revelaram acima do concretizado, então algo falhou e iremos transmitir opinião negativa. Portanto, vamos ajustar as nossas expectativas sobre os fundamentos para uma excelente viagem pela Estrada Nacional 2.

No final tentarei ter respondido às duas questões que mais vezes me fizeram:

1. Qual é o trajeto original da EN2?

2. Quantos dias necessito para fazer a EN2?

Como referi no início, o texto que segue não pretende ser um roteiro turístico. E sob o ponto de vista do produto turístico que a EN2 deveria ser, até visando a sua projeção internacional como mais um destino de eleição para os motociclistas europeus, muito – mas mesmo muito – haveria a fazer. São contas de outro rosário…

Vamos então às respostas:

1. Qual é o trajeto original da EN2?

Importa contar alguma da história da EN2 porque ela justifica muito do que será dito sobre o percurso.

É bom lembrarmo-nos do seguinte: a EN2 não existe na atualidade nem existiu anteriormente (exceto por breve período de tempo). Bem…pelo menos naquilo que é publicitado ou referido por aí: a maior estrada de Portugal (os tais 738,5km) e a terceira maior do mundo (ainda hoje estou para saber onde foram buscar esta ideia, porque não é a terceira nem a trigésima…). Falei atrás de expectativas, não foi?

Na atualidade, a estrada que está qualificada como EN2 sai de Chaves e termina em Mora, já no Alentejo. Daí para baixo chama-se ER2 (foi despromovida há alguns anos) e isto tem algumas consequências: induz em erro os menos atentos e significa que a gestão da estrada está a cargo das autarquias pelo que as condições do piso se alteram substancialmente (umas vezes melhor, outras pior).

Acresce que, nalguns pontos, a estrada que está classificada como EN2 não é a estrada original: ou porque já não existe (p.ex., um troço ficou submerso pela Barragem da Agueira) ou porque foi substituído (as variantes às localidades ou o troço entre Sertã e Abrantes que hoje é uma moderna via rápida).

Sobre o antigamente, convém referir que a EN2 não foi construída de raiz. Ela resulta de uma classificação criada no Plano Rodoviário Nacional de 1945 (11 de Maio) e o número que lhe correspondeu tinha a ver com a importância que lhe era atribuída em termos da rede de estradas nacional (era a segunda o que permite ver a importância que então era dedicada ao interior…).

A designada EN2 agregou muitos troços de estrada já existentes (desde antigas estradas romanas até às anteriormente designadas Estradas Reais) e foram construídos outros troços que permitiram fazer a ligação total. O último troço da EN2 a ser asfaltado foi na década de 70 do século passado. Esse Plano Rodoviário era muito minucioso: dizia quais as características que a estrada deveria ter – perfil, largura, tamanhos das bermas, tipo de traçado, sinalização, etc.

Ora, para os efeitos hoje pretendidos de quem vai “fazer a Estrada Nacional 2”, julgo que o interessante será percorrer um percurso tão próximo do original quanto possível.

Recordo que naquela altura, as estradas passavam obrigatoriamente pelo centro das localidades. O mesmo deveremos fazer sempre que possível. Porque digo isto? Porque nalgumas destas terras, a instalação de sentidos únicos por vezes o impede. O truque poderá ser seguir as indicações de “Centro” e depois apontar à saída. O fundamental é percorrer as terras e conhecê-las (de forma mais breve ou mais demorada, depende da viagem que cada um estiver a fazer).

Façamo-nos à estrada…

Saindo de Chaves – no km 0 – rumamos a sul.

Até Viseu o percurso não tem constrangimentos de maior.  Assim passamos Vila Pouca de Aguiar, Vila Real, Santa Marta de Penaguião e Peso da Régua onde atravessaremos o Rio Douro (não pela ponte onde anteriormente a EN2 passava que agora é pedonal).

Rumamos a Lamego onde precisaremos de estar com atenção: quando chegamos à alameda que ao fundo tem a escadaria do Santuário de Nª Sª dos Remédios – a Av. Dr. Alfredo de Sousa – deveremos percorrê-la até ao seu final, virar à esquerda e passar por baixo da dita escadaria, continuar na mesma avenida (agora no sentido contrário) e a meio (um pouco antes de chegar à Catedral) virar à direita e subir. Cruzamos novamente a escaria do Santuário e estamos no nosso caminho.

Passamos pelo Alto de Bigorne (o ponto de maior altitude da EN2), Castro Daire (pelo centro) e aproximamo-nos de Viseu. Aqui necessitamos novamente de estar com muita atenção, até porque a sinalização induz em erro! Quando chegamos à rotunda que dá entrada na Av. da Europa, vemos uma placa a indicar que a EN2 é por ali. A original não é! É na saída seguinte para a Av. da Bélgica, que vai passar ao lado da Cava de Viriato e pelo Rossio de Viseu. Depois, mais de uma dezena de rotundas depois, deveremos seguir as indicações para Coimbra e logo que vejamos uma placa que indique Faíl, é essa a nossa rota (cuidado para não entrar no IP3). Confuso? Muito. A sinalização não ajuda, até porque como é habitual no nosso País, geralmente tenta levar-nos para as autoestradas e IPs… vá lá saber-se porquê…

Seguimos em paralelo com a Ecopista do Dão. Atravessamos Tondela e vamos chegar a Santa Comba Dão. Aqui precisamos novamente de muita atenção!

Sempre em frente, prosseguimos pela Av. Gen Humberto Delgado até à rotunda onde termina e viramos à esquerda. Descemos (R. Miguel Neves) e vamos fazer a travessia do Rio Dão utilizando o IP3 e a respetiva ponte. 100 metros depois, viramos à direita para entrar e atravessar o Vimieiro.

Vamos continuar pela EN2 (em paralelo com o IP3). A certa altura parece que teremos que entrar neste, mas não, passamos por cima e continuamos pela estrada ao lado. Mais à frente, junto ao cruzamento para Chamadouro, se assim o quisermos, poderemos fazer um pequeno desvio (é ir e voltar pelo mesmo caminho) e ir ao encontro da albufeira da barragem: o local onde a estrada ficou submersa e que é variável em função do nível das águas nessa altura.

De regresso ao caminho, mais à frente sim, seremos obrigados a entrar novamente no IP3 para nova travessia. Assim que termina a ponte, saímos pela direita, contornamos um restaurante que por aí há, passamos por baixo do IP3, ao lado de um resort turístico e vamos ao encontro da EN228 que pouco quilómetro à frente nos fará passar por cima do paredão da Barragem da Agueira. Logo a seguir a esta, uma placa indica Coimbra. É por aí.

A partir daqui iremos sempre ao lado do Mondego pela sua margem esquerda: Oliveira do Mondego e Porto da Raiva serão as aldeias que iremos atravessar. Depois a Livraria do Mondego, que desta margem podemos apreciar na plenitude e logo, pouco à frente, está Penacova. Continuamos deste lado, pela EN2 a caminho de Vila Nova de Poiares. Sucedem-se Góis, Pedrógão Grande (atenção à entrada na povoação que requer estarmos atentos), Barragem do Cabril, Pedrógão Pequeno, até à Sertã. Sempre a evitar o IC8 que segue próximo.

Aqui, na Sertã, temos nova fase complicada a requerer muita atenção e que se vai prolongar até chegarmos a Alferrarede/Abrantes. Já dentro da vila, passamos primeiro por uma pequena ponte sobre a Ribeira do Amioso onde se vira à direita. Prosseguimos e nova ponte, desta vez sobre a Ribeira Grande. Aí, passada a ponte, temos uma rotunda onde viramos novamente à direita e seguimos pela Av. Padre Manuel Antunes.

Passamos por Portelinha e depois Junceira onde finalmente entroncamos na “nova” EN2. Mais à frente, o inevitável Centro Geodésico de Portugal no Picoto da Melriça. Visita obrigatória.

Regressamos à EN2 até porque Vila de Rei é já ali. Á saída, uma rotunda distribui o trânsito: à direita para Ferreira do Zêzere, em frente a moderna EN2 e à esquerda a que chamámos de original – é por aqui.

Alguns (poucos) quilómetros adiante passamos por baixo da via rápida junto à zona industrial do Souto. A estrada é estreita, nalgumas zonas bem sinuosa, principalmente quando nos aproximamos do Penedo Furado. Sucedem-se Brescôvo, São Domingos e o Sardoal. Até Alferrarede iremos cruzar novamente a “nova” EN2 por duas vezes.

E assim chegámos a Abrantes. Aqui podemos constatar a mudança radical na paisagem. De serranias atrás de nós, passamos à planície.

Do Rossio ao Sul do Tejo – quilómetro 405 da EN2 – rumamos a sul: em Domingão passamos ao lado de Ponte de Sor. Depois, junto à margem da albufeira de Montargil, e logo estamos em Mora. Pouco mais à frente Brotas e depois o Ciborro onde é inevitável a fotografia junto ao quilómetro 500. Finalmente, Montemor-o-Novo.

Se até Abrantes o ritmo é relativamente lento graças à sinuosidade do traçado, agora é o contrário: Alcáçovas, Torrão, Ferreira do Alentejo, Aljustrel, Castro Verde e Almodôvar, sucedem-se. Logo a seguir a esta última povoação fica o marco do quilómetro 666… (desde Abrantes fizemos 260 km). E estamos às portas do Algarve.

Falta-nos o último desafio: as 365 curvas da Serra do Caldeirão. De S. Brás de Alportel em diante já sentimos a maresia.

A última dificuldade fica já dentro da cidade de Faro. Quando entramos na cidade seguimos em frente pela Rua do Alportel e encontramos a nova rotunda com o marco dos 738km. Quem procura algo mais original, tem que andar mais um pouco. Continuar na mesma rua: a dado passo, um sentido proibido obriga-nos a virar à direita, por aí seguimos e viramos na 2ª à esquerda e depois novamente à esquerda na Rua Aboim Ascensão. Quando encontramos novamente a Rua do Alportel…lá estão as placas que indicam que se quisermos fazer a EN2 no sentido contrário…faltam 738,5km até Chaves.

A Estrada Nacional 2 “está feita”.

Por todas as razões acima mencionadas, recomendo vivamente a utilização de um GPS. E disponibilizamos o respetivo ficheiro em formato GPX, claro.

2. Quantos dias necessito para fazer a EN2?

A resposta a esta questão pode ser muito simples: todos os que estiverem disponíveis. Principalmente se forem bastantes.

Só que geralmente não é assim. Curiosamente, a maior parte das pessoas que colocam esta dúvida, quer fazê-la no menor tempo possível. Vou procurar ir de encontro a esta forma de encarar a EN2.

Já a fiz num só dia, já a fiz em vários dias, já fiz diferentes troços em outras tantas ocasiões. Todas as hipóteses são válidas. Só que correspondem a objetivos diferentes, geram expectativas diversas e resultados obviamente únicos. A cada um a sua EN2 e essa é uma das suas riquezas.

Um ponto prévio: na contabilidade dos dias, convém recordar que se o objetivo é regressar ao ponto inicial da viagem, a distância vai duplicar. Setecentos e muitos para a EN2 e pelo menos outros tantos a dividir pela ida até Chaves e para o regresso de Faro.

Primeiro fator a considerar: quanto mais paragens mais tempo se demora (seja pessimista quanto à alocação de tempo para cada visita. Demoram sempre mais que o previsto). E algumas, são efetivamente demoradas.

Em segundo lugar, o ritmo da viagem é fundamental: madrugadores tenderão a tirar mais partido do que os mais preguiçosos. Até porque o pôr do sol é à mesma hora para ambos e viajar de noite não se justifica, pois para ver as estrelas, é melhor sentado numa qualquer esplanada no final da etapa. Isto significa que se tira melhor “rendimento” da viagem nos dias mais longos de Maio a Julho. Mas garanto que noutras épocas do ano, a estrada não perde a sua beleza, pelo contrário, diversifica-a.

Terceiro: os tempos dedicados à gastronomia são importantes. Há que ajustar os almoços ao tempo disponível para não andar a recuperar tempo na estrada, com os riscos que isso acarreta…e de barriga cheia! E convém considerar a frequência e demora para abastecer de combustível (que depende das características do veículo utilizado e da sua autonomia). Uma sugestão poderá passar por almoços ligeiros e a desforra ao jantar…

O quarto fator é o único elemento fixo da equação: a estrada é igual para todos. O trajeto não tem sempre as mesmas características. De Chaves até Vila Real flui razoavelmente, mas com algumas localidades atravessadas. Daí até Lamego torna-se bastante sinuoso e geralmente movimentado. Depois, até Viseu torna a fluir bem.

A seguir a Viseu e até chegarmos ao Rio Tejo, o ritmo é sempre mais lento do que a distância deixaria antecipar. Convém levar este especto em consideração. Seja pelas características do traçado seja por todas as “dificuldades” que já vimos anteriormente quanto a descobrirmos o percurso desejado.

De Abrantes para baixo, entramos no Alentejo. As planícies geralmente com boas estradas (uma ou outra excepção) permitem bons andamentos até porque o número de povoações atravessadas diminui drasticamente.

A partir de Almodôvar, com a entrada no Algarve, temos a cereja no topo do bolo: a Serra do Caldeirão com as suas 365 curvas. Uma por cada dia do ano e capazes de satisfazerem os gostos de qualquer motociclista, mesmo os mais exigentes.

Então, e afinal quantas etapas?

Se possível for, diria que 3 etapas até Abrantes, mais uma até Castro Verde/Almodôvar e uma meia etapa daqui até Faro.

Comecemos pelo fim: porquê esta meia etapa? Porque é muito mais saboroso (e seguro!) fazer o Caldeirão pela manhã, pela fresca, do que no final do dia já cansados e com alguns centos de quilómetros em cima. Por outro lado, o alojamento e a alimentação, serão muito mais económicos no Alentejo do que no Algarve. Sendo possível, a outra metade do último dia pode ser dedicada ao regresso.

Resumindo 4 dias e meio: Uma primeira etapa até Lamego ou Castro Daire. Uma segunda, daí até Góis ou Pedrógão Grande. A terceira até Abrantes ou Montargil. As restantes já falámos atrás.

É evidente que se tiver mais tempo disponível…excelente. É disfrutar do muito que a EN2 tem para oferecer.

Sabemos, todavia, que o ótimo é inimigo do bom!

Com motociclistas madrugadores e cortando nalgumas visitas à margem do percurso, diria que é perfeitamente viável cortar 1 dia ao que acima referi. Por exemplo, terminar o primeiro dia em Viseu e o segundo em Abrantes ou algo antes. Daí para baixo, o mesmo dia e meio já referido.

Em suma, se quisermos ficar a conhecer a EN2 sem ser só “fazer alcatrão” 3 dias e meio será o mínimo. Sem perder muito tempo com as paragens alimentares dá para uma ou outra visita a algum ponto de interesse e para ir tirando umas fotos.

Uma sugestão final: se a viagem for em grupo, quando contabilizarem os tempos de paragem necessários acrescentem 10 a 15 minutos por cada 100 km…. fala a experiência!

E pronto: as primeiras ferramentas para preparar a experiência pela Estrada Nacional 2 estão aqui. Já sabem qual o caminho e quanto tempo poderão demorar. Agora é preparar o resto… porque a EN2 está à vossa espera.

Garanto-vos que depois de a percorrem, a vossa visão sobre a diversidade de paisagens, de gentes e de tradições do nosso País vai ficar muito mais rica. E é uma fantástica viagem para fazer de moto.

Texto: Henrique Saraiva – “Viagens ao Virar da Esquina”
Fotos: Henrique Saraiva

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